sábado, 1 de maio de 2010
Lua Bonita
Se tu não fosses casada
Eu preparava uma escada
Pra ir no céu te buscar
Se tu colasse teu frio com meu calor
Eu pedia ao nosso senhor
Pra contigo me casar
Lua bonita
Me faz aborrecimento
Ver São Jorge no jumento
Pisando no teu clarão
Pra que cassaste com um homem tão sisudo
Que come dorme faz tudo, dentro do seu coração?
Lua Bonita, Meu São Jorge é teu senhor,
E é por isso que ele "véve" pisando teu esplendor
Lua Bonita se tu ouvisses meus conselhos
Vai ouvir pois sou alheio,
Quem te fala é meu amor
Deixa São Jorge no seu jubaio amuntado
E vem cá para o meu lado
Pra gente viver sem dor.
(Raul Seixas)
sábado, 10 de abril de 2010
O Guardador de Rebanhos
II
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
terça-feira, 6 de abril de 2010
Seja o meu lençol
O pêlo roça a pele, a pele roça o corpo,
O corpo roça a alma e a alma roça o mundo
E esse negócio de alma na alma é profundo
É o "tete no tete"...
Debaixo da Lua, da noite, do Sol, da manhã, da bomba nuclear
Eu só quero um amor e um lençol...
O mundo pode acabar!
(...)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
AS CONTRADIÇÕES DO CORPO

Meu corpo não é meu corpo,
é ilusão de outro ser.
Sabe a arte de esconder-me
e é de tal modo sagaz
que a mim de mim ele oculta
Meu corpo, não meu agente,
meu envelope selado,
meu revólver de assustar,
tornou-se meu carcereiro,
me sabe mais que me sei.
Meu corpo apaga a lembrança
que eu tinha de minha mente,
Inocula-me seus patos,
me ataca, fere e condena
por crimes não cometidos.
O seu ardil mais diabólico
está em fazer-se doente.
Joga-me o peso dos males
que ele tece a cada instante
e me passa em revulsão.
Meu corpo inventou a dor
a fim de torná-la interna,
integrante do meu Id,
ofuscadora da luz
que aí tentava espalhar-se.
Outras vezes se diverte
sem que eu saiba ou que deseje,
e nesse prazer maligno,
que suas células impregna,
do meu mutismo escarnece.
Meu corpo ordena que eu saia
em busca do que não quero,
e me nega, ao se afirmar
como senhor do meu Eu
convertido em cão servil.
Meu prazer mais refinado
não sou eu quem vai senti-lo.
É ele, por mim, rapace,
e dá mastigados restos
à minha fome absoluta.
Se tento dele afastar-me,
por abstração ignorá-lo,
volto a mim, com todo o peso
de sua carne poluída,
seu tédio, seu desconforto.
Quero romper com meu corpo,
quero enfrentá-lo, acusá-lo,
por abolir minha essência,
mas ele sequer me escuta
saio a bailar com meu corpo.
(Carlos Drummond de Andrade: do livro Corpo, Ed Record, 1984)
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
"O Papa a Sacerdotisa e a roda"

Percorremos nossos mundos juntos, cada qual com seu objetivo, cada qual com sua grandiosidade, cada qual com seu brilho, o amor nos percorre e nos une. Nossos corpos se completam , nosso carinho nos vibra. Somos corpos celestiais de intensidade e cores diferentes, que determinado momento se encontraram e percorrem o universo com gravidades difrentes, como dois cometas unidos por forças ditas"desconhecidas ou descraditadas". Cometas que uniram seu fogo e suas determinações para construir algo maior e concreto.
(Presente)
...
Do meu afeto Descortinando o véu dos mistérios meusLindo menino
Homem peregrino
coração Valente
Me abocanham seus dentes
De tigre voraz
Despertando animais
Ao som do tambor
Que toca
As estrelas no Céu
Santa alquimia
Sana
Nossa sandices
Transmutadas
Em odores
Ardores
Alentos
Movimentos sedentos
De cores mais
Verdadeiras
Amor abriga
Amor amigo
Não conhece barreiras
Supera fronteiras
De tempo e cenário
Desconhece clichês
E idades
Vence o olvido
Resgatando antiguidades
Sussurradas
No Templo do Silencio
Quando Xamãs
Fumaram a eternidade
Fiando
Na teia do Futuro
A certeza do encontro.
(Gisneide Nunnes Ervedosa – “De Eros e Ágape”)