terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

AS CONTRADIÇÕES DO CORPO


Meu corpo não é meu corpo,
é ilusão de outro ser.
Sabe a arte de esconder-me
e é de tal modo sagaz
que a mim de mim ele oculta

Meu corpo, não meu agente,
meu envelope selado,
meu revólver de assustar,
tornou-se meu carcereiro,
me sabe mais que me sei.

Meu corpo apaga a lembrança
que eu tinha de minha mente,
Inocula-me seus patos,
me ataca, fere e condena
por crimes não cometidos.

O seu ardil mais diabólico
está em fazer-se doente.
Joga-me o peso dos males
que ele tece a cada instante
e me passa em revulsão.

Meu corpo inventou a dor
a fim de torná-la interna,
integrante do meu Id,
ofuscadora da luz
que aí tentava espalhar-se.

Outras vezes se diverte
sem que eu saiba ou que deseje,
e nesse prazer maligno,
que suas células impregna,
do meu mutismo escarnece.

Meu corpo ordena que eu saia
em busca do que não quero,
e me nega, ao se afirmar
como senhor do meu Eu
convertido em cão servil.


Meu prazer mais refinado
não sou eu quem vai senti-lo.
É ele, por mim, rapace,
e dá mastigados restos
à minha fome absoluta.

Se tento dele afastar-me,
por abstração ignorá-lo,
volto a mim, com todo o peso
de sua carne poluída,
seu tédio, seu desconforto.

Quero romper com meu corpo,
quero enfrentá-lo, acusá-lo,
por abolir minha essência,
mas ele sequer me escuta
saio a bailar com meu corpo.

(Carlos Drummond de Andrade: do livro Corpo, Ed Record, 1984)

Imagem: Raisa Christina

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

"O Papa a Sacerdotisa e a roda"


Percorremos nossos mundos juntos, cada qual com seu objetivo, cada qual com sua grandiosidade, cada qual com seu brilho, o amor nos percorre e nos une. Nossos corpos se completam , nosso carinho nos vibra. Somos corpos celestiais de intensidade e cores diferentes, que determinado momento se encontraram e percorrem o universo com gravidades difrentes, como dois cometas unidos por forças ditas"desconhecidas ou descraditadas". Cometas que uniram seu fogo e suas determinações para construir algo maior e concreto.

(Presente)

...

Do meu afeto Descortinando o véu dos mistérios meus

Lindo menino
Homem peregrino
coração Valente
Me abocanham seus dentes
De tigre voraz
Despertando animais
Ao som do tambor
Que toca
As estrelas no Céu

Santa alquimia
Sana
Nossa sandices
Transmutadas
Em odores
Ardores
Alentos
Movimentos sedentos
De cores mais
Verdadeiras

Amor abriga
Amor amigo
Não conhece barreiras
Supera fronteiras
De tempo e cenário
Desconhece clichês
E idades
Vence o olvido
Resgatando antiguidades
Sussurradas
No Templo do Silencio
Quando Xamãs
Fumaram a eternidade
Fiando
Na teia do Futuro
A certeza do encontro.

(Gisneide Nunnes Ervedosa – “De Eros e Ágape”)